Venho com esta cartinha, Sr. Dr., pedir-lhe desculpa de mais uma vez o ter incomodado. Não era minha intenção, está bom de ver. Mas sabe, sou uma alma simples, vinda lá do Norte e carregando no lombo (do burro e não do “camelo”, Sr. Dr., que aqui para estes lados ele há mais é burros) a antiga “ignorância” e “incompetência” dos simples, assim a modos que uma Maria Papoila.
Esforcei-me, Sr. Dr., para escapar a esta fatalidade mas, sabe, isto é mesmo assim, cada um é pró que nasce, uns, como o Sr. Dr., para serem entes esclarecidos, aristocratas da cultura, toda a vida instalados na varanda dos iluminados a fazer o verdadeiro teatro subsidiado a quase 100% pelo Estado e a ver o poviléu ignaro passar (não pelo seu teatro, eu sei, que às vezes disfarço-me de inteligente
e vou lá, embora o Sr. Dr. não goste que até não me cumprimenta); outros, como eu, para, ajeitada a trouxa, meterem as mãos na massa que mais suja, a do serviço público e da política, e errarem quase sempre – é da sua natureza. Lá dizia a tia Zita: bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros. Nem os estudos me valeram, nem
ser professora catedrática da Universidade do Porto (fica fora de mão, é verdade, mas ó Sr. Dr., é a maior do país), nem as andanças por esse mundo fora, onde por vezes fui vendo teatro imitando o seu. Não retive nada; deve ter sido por via da mente mole, já o sr. padre dizia.
É o mal, Sr. Dr., de democratizarem a Universidade e, pior ainda, a cultura. Onde já se viu, por exemplo, querer que o povo vá ao D. Maria II ou ao S. Carlos? São coisas mesmo de gente que “quer transformar a cultura em mercado”, como o Sr. Dr. perspicazmente percebeu das minhas palavras. Pior Sr. Dr., confesso, de gente que
entende que um dos sinais do nosso tímido desenvolvimento cultural é o descaso entre mercado e cultura.
É como aquela coisa que o Sr. Dr. lembrou e bem da minha “tão defendida descentralização” que “corresponde apenas a um ponto de vista de mero consumidor” e de província, acrescento eu, e pagante, acrescentam muitos contribuintes simplórios. Está mal! Querem cultura de primeira, produzam-na lá na terrinha, como o Sr. Dr.
reclama. Concordo! Imagine que até se criaram novos apoios para isso. E se a malta for alfabetizada de primeira geração, esforce-se, que foi o que o Sr. Dr. fez (embora os simplórios contribuintes venham ajudando, pelo menos há trinta anos, com constância, generosidade e, no caso único da Cornucópia, pagando até o aluguer, mas isso são minudências e, como o Sr. Dr., não há outro).
Só não gostei, desculpe Sr. Dr., foi da expressão “exportar para a província”; é que até parece que província e Lisboa não constam do mesmo país e sabe, a gente cá é muito patriota. Mas ó Sr. Dr., olhe que parece que o S. Carlos, a CNB e o D. Maria têm feito mais descentralização e internacionalização, concorrendo isso, é bom de
ver, para a “decadência do nosso Teatro de Ópera” a que “conduziu a substituição ordenada por” mim, como o sr. Dr. recorda, “da anterior direcção”. Ó Sr. Dr. isso não será ter em pouca conta o corpo de músicos, cantores e técnicos do S. Carlos? Não me diga que o director artístico era insubstituível e eu, simplória também nestas matérias, e o prof. dr. Mário Vieira de Carvalho, ainda mais simplório,
apesar de falar línguas estrangeiras e perceber de bandas de música, não entendemos que devíamos nomear para dirigir um teatro alguém que se recusara pública e
reiteradamente a aceitar o modelo de gestão empresarial (ai, ai, a linguagem!) que o Estado se atreveu a escolher para o S. Carlos? Está mal!
O Sr. Dr., mais do que com a minha fúria arrasadora de três escassos anos, ficou foi zangado por não ter compreendido que a Cinemateca Portuguesa é “uma das melhores cinematecas da Europa e talvez do mundo” – de facto não compreendi. Mas ó sr. Dr. talvez isso derive de me situar intelectualmente ao nível minhoto e duriense e não europeu e universal; é uma questão de escala, desculpe-me mais uma vez. Em compensação, deu-me a alegria de saber que nalguma coisa, já que no Europeu de futebol foi o que se viu, somos os maiores.
Com o espinhaço dobrado, atrevo-me contudo a manter as críticas que faço (no artigo a que se refere e numa entrevista regional que creio não terá lido), a propósito
do chamado “pólo” da Cinemateca, ao modo como esta instituição é gerida e a concordar, de boca aberta, com o sr. Dr. quando qualifica de “saudável” a petição que o reclama. O Sr. Dr. é tão compreensivo! Admiro o facto de o Sr. Dr. ter resolvido vir em pública “defesa” de um amigo que acha que eu “insultei”. Fez
muito bem, os amigos são para as ocasiões e os lobbies – lá na minha terra a gente chama-lhes a malta do Zé do Telhado, do Quim das Bexigas, do Toino das Iscas, mas é
o mesmo – existem para isso; e vai ver como virão outros ajudá-los a ambos… Só que, Sr. Dr., há-de ler com menos paixão e mais siso os dois artigos em causa e vai acabar
por dar conta que se a motivação para vir em defesa do Sr. Director da Cinemateca foi questão de insultos ainda vai escrever um artiguinho em minha defesa, porque estáme a parecer que o seu amigo é como dizia dum patrício um homem cá de Ceide: “É estilista bilioso, explica-se azedamente, diz com afoiteza grosseira o que sabe; mas
acontece às vezes não saber o que diz.” Em matéria de insultos, eu não faço uso deles nem em política, nem na discussão intelectual, por uma razão – e simplória – é
que o sr. padre sempre me disse que é pecado… Antes um pau de marmeleiro nos costados, mas também sou fraquinha de braços. Uma coisinha fez-me doer a alma: então o Sr. Dr. achame arrogante? E logo o Sr. Dr., um intelectual tão humilde, como não pode deixar de ser um verdadeiro intelectual e príncipe das artes. Penitencio-me, Sr. Dr., nunca eu deveria, como diz, ter tido a “veleidade” de apontar o dedo a um bonzo intocável. Sempre assim foi, nos Dantas não se toca, nem pim, nem que se tenha estado num ponto privilegiado de avaliação. Calado, venerando
e agradecido é assim que o poder político deve estar face aos outros poderes e é se quer ganhar eleições. Como os tempos mudaram! Para terminar, que esta já
vai longa, lamento Sr. Dr. ter de o contrariar naquele conselho final que me dá: “Sois belle et tais toi!” Bem queria ser-lhe agradável e seguir o conselho azedo, misógino e fora de moda, até para o sr. Dr. poder envergonhar-se menos
de ser o português que é nesta matéria, mas não posso: quanto à beleza, cada um estende a perna até onde tem coberta, como dizia a tia Berta; quanto à faladura, sou dona da minha voz para não ser escrava do meu silêncio, como dizia a mãe dela, que era uma santa e não era deputada. Dantes, eu sei, as Marias Papoilas calavam e os aristocratas de barba rija falavam, mas os tempos mudaram: é esta coisa da democracia e das igualdades que nos obriga a lidar com gente desqualificada, as mais das vezes, mal lavada até. Mas na vida é assim, Sr. Dr: uns montam o circo, outros batem palmas.
Deputada do PS
pelo Porto (artigo escrito em 29/6/2008)
Isabel Pires de Lima
Esforcei-me, Sr. Dr., para escapar a esta fatalidade mas, sabe, isto é mesmo assim, cada um é pró que nasce, uns, como o Sr. Dr., para serem entes esclarecidos, aristocratas da cultura, toda a vida instalados na varanda dos iluminados a fazer o verdadeiro teatro subsidiado a quase 100% pelo Estado e a ver o poviléu ignaro passar (não pelo seu teatro, eu sei, que às vezes disfarço-me de inteligente
e vou lá, embora o Sr. Dr. não goste que até não me cumprimenta); outros, como eu, para, ajeitada a trouxa, meterem as mãos na massa que mais suja, a do serviço público e da política, e errarem quase sempre – é da sua natureza. Lá dizia a tia Zita: bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros. Nem os estudos me valeram, nem
ser professora catedrática da Universidade do Porto (fica fora de mão, é verdade, mas ó Sr. Dr., é a maior do país), nem as andanças por esse mundo fora, onde por vezes fui vendo teatro imitando o seu. Não retive nada; deve ter sido por via da mente mole, já o sr. padre dizia.
É o mal, Sr. Dr., de democratizarem a Universidade e, pior ainda, a cultura. Onde já se viu, por exemplo, querer que o povo vá ao D. Maria II ou ao S. Carlos? São coisas mesmo de gente que “quer transformar a cultura em mercado”, como o Sr. Dr. perspicazmente percebeu das minhas palavras. Pior Sr. Dr., confesso, de gente que
entende que um dos sinais do nosso tímido desenvolvimento cultural é o descaso entre mercado e cultura.
É como aquela coisa que o Sr. Dr. lembrou e bem da minha “tão defendida descentralização” que “corresponde apenas a um ponto de vista de mero consumidor” e de província, acrescento eu, e pagante, acrescentam muitos contribuintes simplórios. Está mal! Querem cultura de primeira, produzam-na lá na terrinha, como o Sr. Dr.
reclama. Concordo! Imagine que até se criaram novos apoios para isso. E se a malta for alfabetizada de primeira geração, esforce-se, que foi o que o Sr. Dr. fez (embora os simplórios contribuintes venham ajudando, pelo menos há trinta anos, com constância, generosidade e, no caso único da Cornucópia, pagando até o aluguer, mas isso são minudências e, como o Sr. Dr., não há outro).
Só não gostei, desculpe Sr. Dr., foi da expressão “exportar para a província”; é que até parece que província e Lisboa não constam do mesmo país e sabe, a gente cá é muito patriota. Mas ó Sr. Dr., olhe que parece que o S. Carlos, a CNB e o D. Maria têm feito mais descentralização e internacionalização, concorrendo isso, é bom de
ver, para a “decadência do nosso Teatro de Ópera” a que “conduziu a substituição ordenada por” mim, como o sr. Dr. recorda, “da anterior direcção”. Ó Sr. Dr. isso não será ter em pouca conta o corpo de músicos, cantores e técnicos do S. Carlos? Não me diga que o director artístico era insubstituível e eu, simplória também nestas matérias, e o prof. dr. Mário Vieira de Carvalho, ainda mais simplório,
apesar de falar línguas estrangeiras e perceber de bandas de música, não entendemos que devíamos nomear para dirigir um teatro alguém que se recusara pública e
reiteradamente a aceitar o modelo de gestão empresarial (ai, ai, a linguagem!) que o Estado se atreveu a escolher para o S. Carlos? Está mal!
O Sr. Dr., mais do que com a minha fúria arrasadora de três escassos anos, ficou foi zangado por não ter compreendido que a Cinemateca Portuguesa é “uma das melhores cinematecas da Europa e talvez do mundo” – de facto não compreendi. Mas ó sr. Dr. talvez isso derive de me situar intelectualmente ao nível minhoto e duriense e não europeu e universal; é uma questão de escala, desculpe-me mais uma vez. Em compensação, deu-me a alegria de saber que nalguma coisa, já que no Europeu de futebol foi o que se viu, somos os maiores.
Com o espinhaço dobrado, atrevo-me contudo a manter as críticas que faço (no artigo a que se refere e numa entrevista regional que creio não terá lido), a propósito
do chamado “pólo” da Cinemateca, ao modo como esta instituição é gerida e a concordar, de boca aberta, com o sr. Dr. quando qualifica de “saudável” a petição que o reclama. O Sr. Dr. é tão compreensivo! Admiro o facto de o Sr. Dr. ter resolvido vir em pública “defesa” de um amigo que acha que eu “insultei”. Fez
muito bem, os amigos são para as ocasiões e os lobbies – lá na minha terra a gente chama-lhes a malta do Zé do Telhado, do Quim das Bexigas, do Toino das Iscas, mas é
o mesmo – existem para isso; e vai ver como virão outros ajudá-los a ambos… Só que, Sr. Dr., há-de ler com menos paixão e mais siso os dois artigos em causa e vai acabar
por dar conta que se a motivação para vir em defesa do Sr. Director da Cinemateca foi questão de insultos ainda vai escrever um artiguinho em minha defesa, porque estáme a parecer que o seu amigo é como dizia dum patrício um homem cá de Ceide: “É estilista bilioso, explica-se azedamente, diz com afoiteza grosseira o que sabe; mas
acontece às vezes não saber o que diz.” Em matéria de insultos, eu não faço uso deles nem em política, nem na discussão intelectual, por uma razão – e simplória – é
que o sr. padre sempre me disse que é pecado… Antes um pau de marmeleiro nos costados, mas também sou fraquinha de braços. Uma coisinha fez-me doer a alma: então o Sr. Dr. achame arrogante? E logo o Sr. Dr., um intelectual tão humilde, como não pode deixar de ser um verdadeiro intelectual e príncipe das artes. Penitencio-me, Sr. Dr., nunca eu deveria, como diz, ter tido a “veleidade” de apontar o dedo a um bonzo intocável. Sempre assim foi, nos Dantas não se toca, nem pim, nem que se tenha estado num ponto privilegiado de avaliação. Calado, venerando
e agradecido é assim que o poder político deve estar face aos outros poderes e é se quer ganhar eleições. Como os tempos mudaram! Para terminar, que esta já
vai longa, lamento Sr. Dr. ter de o contrariar naquele conselho final que me dá: “Sois belle et tais toi!” Bem queria ser-lhe agradável e seguir o conselho azedo, misógino e fora de moda, até para o sr. Dr. poder envergonhar-se menos
de ser o português que é nesta matéria, mas não posso: quanto à beleza, cada um estende a perna até onde tem coberta, como dizia a tia Berta; quanto à faladura, sou dona da minha voz para não ser escrava do meu silêncio, como dizia a mãe dela, que era uma santa e não era deputada. Dantes, eu sei, as Marias Papoilas calavam e os aristocratas de barba rija falavam, mas os tempos mudaram: é esta coisa da democracia e das igualdades que nos obriga a lidar com gente desqualificada, as mais das vezes, mal lavada até. Mas na vida é assim, Sr. Dr: uns montam o circo, outros batem palmas.
Deputada do PS
pelo Porto (artigo escrito em 29/6/2008)
Isabel Pires de Lima
No Público de hoje
4 comentários:
Foi minha professora. Não me marcou mas sempre a senti assim:sem papas na língua. Indepentemente das questões visadas nesta carta/artigo admiro-lhe a garra e o estilo. Vê-se que é especialista em Eça de Queirós
:-).
Beijinhos.
E fui eu que comentei no post anterior...
Lis
António, este fundo faz-me doer os olhinhos.
Lis
já está mudado a pedido da Lis!
Lis conversei várias vezes com ela enquanto esteve ministra e juro que me espantou o seu humor nesta carta/artigo.
acho do melhor... :)
besos, quando voltas a escrever?
Que blog limpinho e legível!
:-)))
Obrigada, António!
Não sei quando voltarei à escrita...não tenho conseguido. Ando quase zangada com a D. Escrita. Aborrece-me ler-me por isso prefiro ler-vos.
Mas agredeço-te o carinho.
beijinhos
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