respeito a fé.
sei que ontem respeitei as senhoras e senhores que de joelhos vão da igreja da santíssima trindade até à capelinha das aparições, respeitei as hordas de gente que queimava velas ou depositava figuras em cera num local próprio, respeitei as missas e os espaços de silêncio.
felizmente existem os vendilhões e aos magotes, os da matéria onde pude comprar a minha santinha, que muda de cor conforme o tempo e cuja coroa dourada já foi furtada pelos meus gatos e os outros que se passeavam com vestidos pretos chamados sotainas, uns vestidos cruéis para com o corpo masculino, uma roupa que só fica bem num corpo sem barriga e com cintura estreita em comparação com os ombros. esta gente eu aceito mas não respeito.
cada peregrino com quem me cruzei trazia algumas vezes na inscrito na cara o estado de fé. um estado onde a razão não entra, onde não colhe a dialéctica nem o espírito crítico ou curioso. o estado de fé não é apenas alcançado com as vidas ou situações desgraçadas, é-o muitas vezes (a maioria?), mas é para mim efectivamente um mistério, porque resiste à inteligência, à cultura, ao cépticismo perguntador. quando existe fé esta abafa quando necessário tudo o resto. é como um manto de escuridão obscurantista que oculta a vela da razão ou como uma candeia numa cave escura. quando existe é uma coisa e quando não existe é outra.
não tenho mas já a tive e mesmo assim não sei explicar o que é e porque existe. não acho desnecessário ter fé, gostaria de a ter até, talvez me facilitasse mais a análise das coisas da vida. consolar-me-ia, sei por experiência que sim e a verdade é que afinal já sou pressionado pelos meus princípios e eles não me dão nenhuma cenoura por ir atrás deles.
cresci ensinado a achar-me católico de religião e espírita da linha kardequiana de doutrina e o que dá isto na síntese? dá cristianismo com budismo, prevalecendo a culpa católica obviamente. esta coisa fundada por alan kardec no século XIX em paris e teve como seguidores entre outros, arthur conan doyle ou victor hugo. para fácil compreensão acredita-se na roda da reencarnação, os santos são os irmão mais evoluídos, cristo é o maior de todos os irmãos e deus existe. no meio aceita-se e com-vive-se com os padres.
depois acreditei no catolicismo, crismei por vontade própria, fui catecista um ano e deixei de ser católico. passei a cristão e ponto final, por que deixei de acreditar ser possível o humano organizar o divino. depois deixei de ver no cristianismo alguma coisa de divino e achá-lo ainda por cima cheio de superficialidades e maniqueísmos desnecessários, muita culpa do filho que se deixa matar pelo pai, e que este o aceita pelas nossas características, as humanas e que por isso devemos sentir culpa. o pai todo poderoso matou o seu filho de forma consentida por nós. o supérfulo mau substutiu a mensagem revolucionária e humana.
deixei de ser cristão e passei ao tal do agnóstico que obviamente foi onde o sentimento foi pior, existe algo e eu não sei...
hoje sou ateu e não tenho onde me agarrar.
espero nunca regressar ao medo da reencarnação, do céu e do inferno ou ao medo de fazer da crucificação um acto vão, espero não acreditar mais que há um deus que independentemente da vontade humana, de uma forma omnipotente e omnipresente é por tudo responsável. que tudo acontece por sua vontade ou permissão. não consigo acreditar e muito menos tenho fé, não acredito que por acreditar n'ele tenha alguma benesse ou conhecimento...
respeito quem acende uma vela, não respeito quem usa a fé de quem a acende para organizações de vida ou relações com o divino. a questão é, poderão uns viver sem os outros?
PS. foto privada tirada ontem em fátima por A.F.
1 comentário:
(bom post... percebo as perguntas, as certezas, as dúvidas...)
...não tenho apreço nenhum pela 'promessa', pela 'troca espiritual'...
E respeito a fé mas não a tenho.
[mas sendo agnóstico... é estranho como aquele lugar, e não vou lá há muito tempo, tem uma carga estranha... de energia, de vontades, de possibilidade...
intriga-me]
abraço
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