não consigo escrever sobre o meu avô. as minhas regras, os meus principios foram essencialmente bebidos nele. sem ele não tenho mais ninguém a quem falhar. sempre tive medo de não corresponder ao que ele esperava de mim. utilizo o seu apelido apesar de não ser o meu último apelido, sou o último a fazê-lo, comigo morre esta família. com ele morreu o resto do meu passado, da minha infância, da minha mãe. Morreu o gigante que me ensinou a atar os sapatos, a ser contra a pena de morte desde a escola primária, que me ensinou muito sobre a fraqueza humana, a saber evoluir que era para ele o ponto que nos distingue dos outros: temos de estar sempre a caminhar para o amor, paz e harmonia. foi ele que me explicou o que era o esperanto, que todas as ditaduras são más, que os padres e os militares são pouco evoluídos e que os devemos ajudar. eu e o meu avô somos muito chegados, fui eu o escolhido para lhe dizer que a sua filha tinha morrido, nesse dia devolvi-lhe os ensinamentos que me tinha dado e ele sorriu e disse-me algo como: neto, lembraste-me o que eu já tinha lembrado, mas preferia ter não enterrar a nossa irmã (a minha mãe). e descansa que o avô ainda ficará mais uns tempos contigo, agora vai ajudar os outros que o avô não consegue.
para o meu avô, eu sou velho, estou nas ultimas reencarnações, tenho de ser dádiva e amor para os outros, tenho de exigir mais de mim do que exijo aos outros. desde criança que mo disse: pouco te vão ensinar, ouve tudo, muitos estão a lembrar-te do que já sabes, mas te esqueceste no teu ultimo nascimento.
a ultima conversa lúcida foi dura, menti-lhe no hospital. quando foi preciso interná-lo de vez, fui chamado para lhe explicar. quando acordou no hospital da Luz estava agitado até me ver e depois perguntou-me se era eu que estava a tratar das coisas, anuí e ele descansou... depois abriu os olhos, agarrou-me no braço com força e disse-me: neto, vieram dizer-me (nem se perguntem quem!) que já não acredistas em deus, é verdade? e eu disse-lhe: acredito em deus avô, no supremo ser e irmão! e aqui menti... e fiquei triste.
isto não é escrever sobre o meu avô, isto é sobre a minha solidão. sem ele fico sozinho, sem ninguém a quem falhar.
e agora?
tudo continua, mas sinto uma solidão com que tenho de saber lidar para não lhe falar.
se seguisse as suas intruções, dadas quando fez 70 anos, em 1990, não poderia chorar, não poderia vestir preto, não visitaria mais o seu túmulo que é mesmo da minha mãe e avó, teria de estar feliz e teria de continuar o seu objectivo de vida, ajudar os outros.
não digo adeus avô, nem até já. não digo nada porque enquanto eu viver tu também viverás. um beijo irmão humano.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
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3 comentários:
é dificil mas é algo que temos de aguentar.
são os nossos avós que mais nos marcam.
Vive a tua vida segundo o que eles nos ensinaram e tira as tuas ilações. Só assim seremos o que eles esperam de nos.
notas íntimas e comoventes.
um grande abraço
Os meus sentimentos...
Força aí!
Abraço grande
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